quarta-feira, 19 de setembro de 2012

De olho na tropa

DE OLHO NA TROPA

A cada mugido do gado
Renasce o Rio Grande no campo
No esbugalhar dos olhos, o espanto
De quem vem tocado na tropa
Ao lado, o campeiro galopa
Conduzindo o rebanho no grito
Provando que mais do que mito
O gaúcho é um centauro de fato
Carregando sua tropa com tato
Tocando a vida a despacito

Não há quem esqueça a imagem
De uma tropa num corredor
A beleza e o esplendor
Do bater de cascos na terra
Do terneiro que junto à mãe, berra
Do comboio que se empurra com o peito
Troteando de qualquer jeito
Em direção a um destino qualquer
Seja o caminho que vier
Tanto faz, largo ou estreito

O caminho à frente se espicha
Tal qual o fio de baba que escorre
Dos beiços do gado que corre
Deixando pra trás a poeira
Enquanto uma ou outra terneira
Emparelha com a mãe, assustada
Pelos cuscos já vem acossada
A pouco se perdeu lá atrás
E por sorte, assim no más
Não se cortou na cerca afiada

É por conhecer de tropeada
Que no corredor se usa fio liso
Mas, às vezes, alguém, sem aviso
Coloca um arame farpado
E isso, pra quem toca o gado
Pode ser prejuízo ou perigo
Porque um enrosco num arame, lhes digo
É uma volteada bem braba e bem feia
Vai cavalo e o índio apeia
Podendo se quebrar, o amigo

Sem contar o corte no bicho
Se o destino é o matadouro
Um talho fundo e o couro
É refugado no curtume
E mesmo que serventia se arrume
Não vai valer muitos pilas
E recortado, vendido nas vilas
Pra fazer capacho ou banqueta
Virando coisa sotreta
Que compram, fazendo fila

Por isso que a tropa de gado
Tem que ser tocada a capricho
O cuidado com cada bicho
Como se fosse um irmão pequeno
Um vai adiante, no terreno
Buscando o melhor caminho
Os outros cercando, devagarinho
Cuidando pra não estourar
Porque se a tropa descambar
Tu podes chegar sozinho

É por essas coisas da lida
Que a escolha do capataz
Recai em quem é capaz
De tratar o gado com amor
Pois, atrás do fiador
Envereda por vez o ponteiro
Puxando o sinuelo primeiro
E os que escapam da peonada
São repostos na paletada
E assim segue o tropeiro

Às vezes a jornada é mais longa
Vai direto pro matadouro
E o mugido do gado é um agouro
Ecoando na pampa sulina
Avisando pros demais sua sina
Outras vezes é só troca de pasto
Nesse nosso Rio Grande vasto
Mudando o gado de invernada
Lida que não troco por nada
Pois isso é vida, o resto é tempo gasto.


Leandro da Silva Melo






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